Hyperpop
O hyperpop é produto da “cultura hipertecnológica”. É como direcionar o otimismo tecnológico para as artes

Estava lendo a edição de hoje (13/07) do The New York Times quando vi um interessante termo chamado “Hyperpop”. A palavra apareceu na reportagem cujo título questionava como homenagear musicalmente Sophie, inovadora produtora musical falecida em 2021. O autor do texto aponta que houve tentativas de prestar tributos à artista e cita exemplos. Mas, conclui, nenhuma das homenagens conseguiu “necessariamente” capturar “seu som característico”, embora tenham apreendido sua “filosofia” e sua “humanidade”.
Ao contextualizar um dos exemplos citados — o músico britânico A.G. Cook —, o jornalista escreve que “Cook foi um dos colaboradores mais próximos de Sophie; ele escreveu longamente sobre o quanto sua arte e musicalidade foram influenciadas pelas ideias dela sobre produção e artifício, e a dupla foi frequentemente posicionada como as principais forças do que agora é conhecido como hyperpop.”
Na mesma reportagem, há uma declaração de Sophie sobre instrumentação que descreve sua filosofia e, talvez, ajude também a caracterizar o que é hyperpop: “A linguagem da música eletrônica não deveria ainda fazer referência a instrumentos obsoletos como bumbo ou palmas. Ninguém está chutando ou batendo palmas. Faz mais sentido na minha mente descartar essas ideias de polifonia e papéis tradicionais da instrumentação.”
O prefixo “hiper” tem sido utilizado por filósofos, sociólogos e outros pensadores para caracterizar diversos aspectos da cultura contemporânea. Fala-se, por exemplo, em hiperconsumo e em hipercapitalismo. A cultura atual foi designada pelos autores Gilles Lipovetsky e Jean Serroy — no livro A Cultura-Mundo — como “hipertecnológica”. Pode-se observar, na citação de Sophie, uma rejeição a instrumentos musicais “obsoletos” e a “papéis tradicionais” da instrumentação. Ela sugere que a música eletrônica deve ser guiada por aquilo que Lipovetsky e Serroy chamam de “high-tech e sua demiurgia infinita”.
Will Pritchard, jornalista do The Independent, foi um dos autores que descreveram em detalhes as características do hyperpop. Com base na tecnologia empregada para produzir esse tipo de som, ele o define como “um som cativado por melodias de sintetizador tensas e estridentes e ganchos viciantes com Auto-Tune”.
O hyperpop é produto de uma “cultura hipertecnológica”. É como direcionar o otimismo tecnológico para as artes. Lipovetsky e Serroy dizem que o “universo tecnocientífico” é “um fenômeno totalizante e universal”. Portanto, a música não escapa. Mas, no caso discutido aqui, o apreço pela inovação tecnológica está relacionado à experimentalidade musical, o que nos leva a outras características do hyperpop, que não pode ser reduzido aos seus aspectos técnicos.
Segundo Pritchard, o hyperpop também aborda “surrealismo, nostalgia pela aparentemente passada era da internet dos anos 2000 e distorção — muita distorção”. Assim, o exagero e a intensidade podem ser elementos rudimentares nesse tipo de som. A distorção serve para criar uma qualidade sonora singular: a distorção vocal pode gerar vozes robóticas e futuristas, enquanto a distorção de sintetizadores pode elevar a agressividade do timbre. Ademais, isso envolve o uso de efeitos como fuzz e overdrive, entre outros. A música “Emerald”, de A.G. Cook, por exemplo, possui sons que lembram jogos de videogame.
O jornalista do The Independent comentou também sobre a duração das músicas e a capacidade do hyperpop de combinar elementos de diferentes gêneros: “As músicas tendem a ser curtas e rápidas — muitas delas estilizadas em letras minúsculas — mas conseguem reunir uma variedade desconcertante de elementos estilísticos, desde bubblegum pop e eurohouse até hip-hop, trance, J- e K-pop, emo e até nu-metal.”
Essa hipervelocidade está diretamente relacionada às inovações tecnológicas, que aumentam a velocidade das relações sociais. A tecnologia permite maiores possibilidades de produção musical em um período mais curto de tempo. Essa particularidade do século XXI atinge todos os gêneros musicais, naturalmente. No entanto, o hyperpop incorporou isso como atributo estilístico distintivo. Por exemplo, no álbum Brat, de Charli XCX, todas as músicas têm menos de quatro minutos.
Outra qualidade do hyperpop são os refrões cativantes. A melodia é simples e repetitiva, mas amplificada pelo uso de Auto-Tune e sintetizadores. Há ainda a modulação vocal. Trata-se de uma combinação que faz a música “grudar” na mente do ouvinte. Como diz Pritchard, os “refrões são mais contagiantes do que um resfriado comum”. A angústia está presente nas letras, acompanhada por uma sonoridade intensa e combinada com uma estética visual vibrante que contrasta com a melancolia lírica.

